Este blog é a seqüência de :
www.corrupcionario.blogspot.com
Segue em :
www.corrupcionario-4.blogspot.com
Corrupcionário da Ilha de Santa Catarina


| Governador teme fuga de investidores |
Diário Catarinense ; 5/11/2007 |
Diário Catarinense ; 11/5/2007 A Justiça Federal condenou ontem o ex-secretário de Urbanismo e Serviços Públicos de Florianópolis, Odilon Furtado Filho, a um ano de detenção, substituída pelo pagamento de 20 salários mínimos e multa de R$ 4,5 mil, por não ter prestado informações requisitadas pelo Ministério Público Federal (MPF). |
Para aqueles que não tem familiaridade com os blogs lembramos que os textos são publicados “de baixo para cima”, portanto é necessário “rolar a tela” até o limite inferior do cursor à direita.
Este site compõe a seqüência iniciada em :
www.corrupcionario.blogspot.com
Lei e ordem
Coluna Carlos Damião ; 10/5/2007
O governador Luiz Henrique insistiu na tese, durante entrevista hoje ao Bom Dia Santa Catarina, que o rigor da Operação Moeda Verde afastou investidores (citou um caso) que pretendiam desenvolver empreendimentos no Estado.
Há um engano nessa análise do governador. O que deve atrair investidores é exatamente o rigor com relação às normas ambientais. Empreendedores que acham que podem comprar tudo e todos não são bons para Santa Catarina, tampouco para Florianópolis, uma cidade que marcha para a extinção.
| Inquérito ganha força com quebra de sigilos |
Diário Catarinense ; Felipe Pereira ; 10/5/2007 |
Completados sete dias, a Polícia Federal começa uma nova fase na Operação Moeda Verde, com a abertura de um inquérito para investigar a comercialização de licenças ambientais em Florianópolis. Como as investigações, de acordo com a assessoria de imprensa da PF, teriam apontado indícios de participação de todos os 22 suspeitos, nenhum deles foi excluído. Também não está descartada a possibilidade de outras pessoas serem chamadas para prestar depoimento ou mesmo terem prisão decretada pela Justiça. |
| Liberado, Marcílio Ávila fica na Santur |
Após se reunir com o governador Luiz Henrique da Silveira para discutir as suspeitas levantadas pela Operação Moeda Verde, e de ficar preso cerca de oito horas na Polícia Federal (PF), o vereador licenciado Marcílio Ávila foi mantido na presidência da Santur, empresa de Turismo do Estado. |
| PF se opõe ao que afirma o governador |
| Diário Catarinense ; Ângelas Bastos ; 8/5/2007 |
A Polícia Federal, através de sua assessoria de comunicação social, rebateu ontem a avaliação do governador Luiz Henrique da Silveira (PMDB), que chamou de "pirotécnica" a Operação Moeda Verde. |
Diário Catarinense ; 8/5/2007 Em entrevista coletiva, ontem pela manhã, o empresário Fernando Marcondes de Mattos, admitiu que costumava ligar para funcionários de órgãos ambientais, mas afirmou que jamais pagou para obter permissão de construir em áreas de preservação permanente. Marcondes disse que a tramitação dos projetos é muito lenta e os telefonemas foram feitos somente para pedir mais agilidade aos processos. |
| Vereadores não querem criar CPI |
Diário Catarinense ; Ângela Bastos ; 8/5/2007 |
Não vai haver Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Câmara Municipal de Florianópolis para investigar o envolvimento de vereadores na concessão irregular de licenças ambientais. O pedido foi entregue, ontem, por ambientalistas presentes na primeira sessão ordinária depois que foi deflagrada a Operação Moeda Verde pela Polícia Federal, na quinta-feira da semana passada. |
Diário Catarinense ; 8/5/2007 A Justiça Federal decretou, ontem à noite, a prisão preventiva do vereador, por Florianópolis, Juarez Silveira; do secretário municipal de Urbanismo e Serviços Públicos (Susp), Renato Juceli de Souza; do servidor da Susp, Rubens Bazzo; e também do ex-funcionário da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fatma), André Luiz Dadam. O juiz pediu, ainda, a prisão do vereador Marcílio Ávila, presidente da Santur, órgão de Turismo do Estado, em função de ele não ter se apresentado, à Polícia Federal até ontem à noite. |
a) Por que jamais foi deflagrada uma investigação acerca da corrupção evidente nas análises de projetos, expedição de alvarás de construção, fiscalização das obras e concessão de habite-se por parte da SUSP?
b) Por que jamais ocorreu uma investigação junto ao corpo técnico do IPUF, responsável pela elaboração das leis que definem a ocupação do solo no município de Florianópolis, visto que os técnicos do Instituto necessariamente tem conhecimento dos atos praticados pela SUSP?
c) Por que os membros do Ministério Público, das três instâncias, jamais instauraram uma investigação acerca da corrupção em relação à aplicação do Código de Obras e Plano Diretor, visto que ela tem sido freqüentemente abordada pela imprensa e mídia eletrônica?
d) Quem são as pessoas, empresas ou autoridades que protegem técnicos envolvidos em atos de corrupção repetidamente denunciados ?
e) Como pode a população de Florianópolis esperar melhorias de qualquer natureza em relação ao uso do solo do município quando, ano após ano, os funcionários responsáveis pelos delitos urbanísticos permanecem irremovíveis em seus cargos?

Folha de São Paulo ; 7/5/2007
Diário Catarinense ; Cacau Menezes ; 7/5/2007
O empresário Carlos Amastha, polêmico empreendedor do Floripa Shopping, procurou os responsáveis pela Operação Moeda Verde, da Polícia Federal, pedindo para prestar depoimento. A decisão de ouvi-lo ou não cabe à delegada Julia Vergara.
| "Todos estão ligados através das provas" |
Entrevista: Julia Vergara, delegada da Polícia Federal Diário Catarinense ; 5/5/2007 |
A delegada Julia Vergara conversou com o Diário Catarinense e explicou que a denúncia inicial era de concessão de licença ambiental indevida para a construção do loteamento Il Campanário em Jurerê Internacional, no Norte da Ilha de Santa Catarina. As investigações levaram ao secretário da Secretaria de Urbanismo e Serviços Públicos (Susp), Renato Juceli de Souza, e ao cunhado dele, o vereador Juarez Silveira. Na seqüência, apareceram empresários e técnicos de órgãos ambientais do Estado e do município. A coordenadora da Operação Moeda Verde disse que todas as licenças para construções em áreas de preservação ambiental passavam pelo vereador, o secretário da Susp e o diretor, Rubens Bazzo. A delegada revelou que Juarez Silveira fazia valer a influência oferecendo "serviços" caracterizando, no mínimo, tráfico de influência. A delegada afirmou que Juarez Silveira fala muito e isso facilitou as investigações. Em nove meses de investigações foram interceptadas 150 mil ligações. Ontem, ela concedeu entrevista exclusiva ao DC. Abaixo alguns trechos. Diário Catarinense - A Habitasul atuava junto com o vereador Juarez Silveira? Julia Vergara - Tinham contato muito próximo, tudo passava pelo Juarez, configurando um tipo de organização. Um em cada ponta. Essa ponta, às vezes, era ocupada por outros empreendedores. DC - O Juarez procurava o grupo Habitasul? Julia Vergara - Ele ligava pedindo "me dá a linha" (pedindo orientações). O Hélio Scheffel (representante do grupo em Santa Catarina) executava, ia aos órgãos, marcava reuniões. Foi percebido um descaso muito grande com a questão ambiental. DC - Sobre os depoimentos de ontem? Julia Vergara - Muita coisa tem sido confirmada, e, por parte dos empresários, como se fossem coisas normais, "fiz porque o cara era forte". Para algumas situações mais sensíveis, como pagamentos, usaram de evasivas. Mas de resto, suspeitas de influência, de favorecimentos vêm sendo caracterizadas. Eles falam: "Realmente dei uma ajuda nas eleições porque ele é um cara forte e podia me favorecer". DC - O que já foi encontrado no material apreendido? Julia Vergara - Dei uma olhada em alguns casos e há elementos que ligam uns investigados aos outros. Questão patrimonial, no caso do Juarez. Muitos recibos são comprovantes de depósitos em valores de R$ 70 mil. Acho que até de R$ 100 mil. São depósitos em dinheiro. DC - O cunhado dele, Renato Juceli de Souza, está envolvido? Julia Vergara - Ele expede o alvará de construção. O Juarez pedia para ele receber fulano, "trata ele bem". Dizia para aprovar a licença para ele. No momento em que forem disponibilizados os áudios não precisarei falar mais nada. O Renato foi colocado na Susp pelo Juarez para que os dois dominassem a concessão de licenças. DC - O que existe contra o presidente da Santur, Marcílio Ávila? Julia Vergara - Toda a atuação no (Shopping) Floripa. Se não fosse ele, o (Carlos) Amastha (dono do shopping) não conseguiria. DC - Como ele agiu ? Julia Vergara - Mudou o Plano Diretor sem fazer estudo de impacto. A mudança do Plano Diretor está sob suspeita. Não quero adiantar muita coisa porque ele não foi ouvido ainda. DC - O Marcílio mantinha contato com os outros envolvidos? Julia Vergara - Na época de liberação do alvará do shopping, ele ligou 39 vezes. DC - E nos autos existe algo contra o Fernando Marcondes de Mattos? Julia Vergara - Ele tem uma empresa, a Inplac, e através dela financiou a campanha do (André) Dadam. Mas não ficou só naquilo. Tudo indica que teve caixa dois. DC - O que mais existe contra o Dadam? Julia Vergara - Na busca, a gente pediu processo de licenciamento para ser analisado. Uma situação é tão esdrúxula, a de uma autorização da Floram, que saiu com uma data e o parecer, dois ou três dias depois. Uma situação ridícula, fazem com escárnio. DC - Havia uma investigação sobre o Dadam porque ele foi preso com R$ 8 mil no ano passado. Já estava sob sua investigação? Julia Vergara - Na verdade, surgiu como situação eleitoral. Meu inquérito tratava do Il Campanário, inicialmente. Ontem (quinta-feira), quando perguntei disso, ele começou a suar frio e o advogado disse para não responder mais. Possivelmente era para campanha em troca de favores prestados anteriormente para a Habitasul. DC - O que existe contra Rubens Bazzo, diretor da Susp? Julia Vergara - Ele está envolvido com o KM-7 e o Colégio Energia, de Jurerê. Situação de fazer projetos por fora, receber por fora, receber para agilizar. Sempre em contato com o Renato Juceli de Souza, que era o secretário da Susp. DC - Em depoimento, a arquiteta Margarida Emília Milani de Quadros disse que o sócio do Shopping Iguatemi Paulo Cezar Maciel da Silva pagou R$ 20 mil a um funcionário da Susp? Julia Vergara - Ela assumiu. E existem fortes indícios que o Paulo Cezar deu um carro para o vereador Juarez Silveira. Tem também áudio muito comprometedor. As análises do material apreendido serão bem produtivas. DC - Existe algo contra o Paulo Toniolo? Julia Vergara - O Juarez andava com uma Cherokee com a placa da DVA Veículos. Pegou o carro 0km. |
| Operação Moeda Verde |
| > A Operação Moeda Verde foi deflagrada quinta-feira de manhã, quando agentes da Polícia Federal, por determinação da Justiça Federal, começaram a cumprir 22 mandados de prisão temporária, em Florianópolis (20) e Porto Alegre (2), além de busca e apreensão em órgãos públicos, empresas e residências. |
| > A operação investiga a existência de um esquema de venda de leis e atos administrativos de conteúdo ambiental e urbanístico em favor de grandes empreendimentos na Ilha de Santa Catarina. |
| > O esquema envolveria a ocorrência de crimes contra a ordem tributária, falsificação de documento, uso de documento falso, formação de quadrilha, corrupção e tráfico de influência. São suspeitos de envolvimento vereadores de Florianópolis, empresários e servidores públicos estaduais e municipais. |
| > Na decisão, o juiz Zenildo Bodnar, da Vara Federal Ambiental de Florianópolis, ressalta que "as prisões não implicam juízo de valor sobre a culpa ou inocência dos envolvidos, a serem devidamente apuradas no curso regular do processo, com respeito ao direito à ampla defesa." |
| > O nome é referência, segundo a Polícia Federal, à negociação em que a moeda de troca envolve o ambiente. |
| Câmara investigará vereadores |
Diário Catarinense ; Renê Müller ; 5/5/2007 |
A Câmara Municipal de Florianópolis vai abrir inquérito na Comissão de Ética e Decoro Parlamentar para investigar a possível participação de vereadores no favorecimento de empresas e empreendimentos para liberação de licenças ambientais. |
| Salum assume secretaria |
Diário Catarinense ; Ângela Bastos ; 5/5/2007 |
O radialista e policial civil Roberto Salum, 50 anos, foi confirmado pelo prefeito Dário Berger como secretário municipal de Urbanismo e Serviços Públicos (Susp) em substituição a Renato Juceli de Souza, um dos investigados na Operação Moeda Verde. |
| Treze suspeitos ainda na prisão |
Diário Catarinense ; Mariana Ortiga ; 5/5/2007 |
Treze dos 22 suspeitos de envolvimento na comercialização de licenças ambientais investigados na Operação Moeda Verde, deflagrada quinta-feira pela Polícia Federal (PF), continuam presos. Ontem, cinco detidos foram transferidos para o presídio masculino da Capital, e quatro pessoas, liberadas. No começo da noite, o médico e sócio da clínica SOS Cárdio, Sérgio Lima de Almeida, que não foi detido no primeiro dia da operação, apresentou-se à polícia. |
Sem tripudiar
Coluna Carlos Damião ; 5/5/2007
Uma explicação a alguns caros leitores: este blogueiro tem procurado analisar os fatos, sem se ater aos nomes de pessoas ou empresas investigadas pela Justiça Federal na Operação Moeda Verde.
Os nomes estão disponíveis nas edições dos jornais e nos sites informativos. Não nos cabe tripudiar sobre este ou aquele político, este ou aquele empresário, esta ou aquela empresa. O que fazemos é avaliar o conjunto, as conseqüências do que houve.
Nem é nosso papel julgar ou apontar culpados. Para isso, existe Justiça. Para isso, existem investigações, inquéritos, depoimentos. Quem conclui sobre culpabilidade ou inocência é o magistrado, que representa os interesses da sociedade (do Estado) no Poder Judiciário.
Portanto, não vamos confundir nossos debates aqui, sobre o futuro de Florianópolis, com o fato de o “o fulano ser amigo do beltrano” ou de que “o sicrano obteve tais e quais vantagens”. Isso é com a Justiça. Conosco, o papo é o outro: para onde vai a capital catarinense?
Com certeza, vai num rumo um pouco melhor. Porque os que se julgavam acima da lei e da ordem, mandando e desmandando, decidindo os nossos destinos conforme seus projetos particulares, estes estão respondendo por seus atos junto à Justiça Federal. Ao serem inquiridos e responsabilizados, eles produzem o melhor exemplo que nós podemos ter sobre o que não deve mais ser feito em Florianópolis. A cidade não é a casa da sogra. O meio ambiente não é cloaca. Foi isso que o juiz Zenildo Bodnar quis dizer quando determinou as prisões: colocar a casa em ordem.
O que esperamos é que, tanto empresas, quanto empresários, políticos e funcionários, cuja culpabilidade possa ser comprovada, sejam enquadrados e que, daqui para frente, tenham respeito pelo que é público.
Rescaldo verde
Coluna Carlos Damião ; 5/5/2007
O Diário Catarinense de hoje publica uma entrevista exclusiva com a delegada federal Júlia Vergara, que comandou a Operação Moeda Verde. Da matéria, destaco uma frase:
No dia em que a operação foi deflagrada (quinta-feira), o que nos chamou atenção, além da lista de peso-pesados da economia local, foi a desenvoltura profissional e a pouca idade da delegada Júlia Vergara. Numa roda de amigos, enquanto ela falava à imprensa, chutamos: "Ela não tem 30 anos".
Está nos jornais de hoje o que disse o governador Luiz Henrique sobre a Operação Moeda Verde: Santa Catarina pode perder grandes investimentos e Florianópolis ser condenada à favelização total. Faço questão de transcrever o que publicou Moacir Pereira em sua coluna no DC, reproduzindo o que disse LHS:
"A sociedade catarinense tem que decidir se quer desenvolvimento ou favelamento - prosseguiu. Precisa refletir se deseja mais favelas do Siri ou hotéis de bandeiras internacionais que gerem empregos e melhorem a vida das famílias".
Embora o governador tenha exagerado em algumas tintas, no conjunto ele não deixa de ter razão num aspecto: precisamos nos organizar, dentro da lei, para que Florianópolis cresça de forma sustentável.
Petra Mafalda/Folha Imagem![]() | Shopping Iguatemi em Florianópolis, uma das obras suspeitas |
A cidade ilegal
Coluna Carlos Damião ; 4/5/2007
"Florianópolis é uma cidade absolutamente ilegal". A frase foi dita pelo diretor do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (Ipuf), Ildo Rosa, à rádio CBN-Diário hoje. Segundo o diretor, que é delegado federal licenciado, de 58% a 60% das obras realizadas na cidade são ilegais, ou seja, não respeitam nenhum tipo de norma.
A verdade é que Florianópolis vem sendo destruída gradativa e impiedosamente há mais de 30 anos, em especial por causa da ganância de alguns, que não respeitam as leis e as condições ambientais da capital catarinense.
Quem destrói a cidade? Olhe ao seu redor, leitor. Dê um pulo na Lagoa da Conceição. Verifique, em algumas ruas, o que aconteceu com a ocupação do solo. Veja se dá para criticar ou lamentar o que houve na Praia da Pinheira (Palhoça), sempre citada como péssimo exemplo de ocupação irregular (lá não houve zoneamento, houve zona pura e simples). Não há diferença. O que fizeram na Lagoa é o mesmo que fizeram na Pinheira: destruíram o patrimônio natural, ignorando não só a legislação ambiental, como também qualquer regra urbanística. Há casas penduradas em casas; construções avançadas pela restinga, pela areia etc. e tal. O mesmo se dá em partes de Ingleses, Canasvieiras, Campeche, Rio Vermelho...
Quem responde por tudo isso? Os 19 que foram presos pela Polícia Federal ontem? Certamente que não. Entre eles pode estar uma parcela da responsabilidade pelo caos urbano em que nos enfiamos. Mas não está toda a culpa, sejamos justos. A coisa não começou ontem. E só vai parar se a comunidade, o Ministério Público, a Justiça Federal e a Polícia Federal mantiverem os olhos bem abertos. Porque, das autoridades constituídas – as democraticamente eleitas –, nós já não podemos esperar mais nada.
Polícia Federal prende 19 empresários e políticos
Diário Catarinense ; Felipe Pereira ; 4/5/2007
A Operação Moeda Verde, como foi batizada, repercutiu em todo o Estado e país. Na Capital, motoristas buzinavam e acenavam para os agentes da Polícia Federal que atuavam na operação. No Centro da cidade, as prisões eram assunto de todas as rodas de conversa.
De acordo com as investigações, políticos e servidores de órgãos ambientais do município e do Estado receberiam dinheiro, carros ou favorecimentos em troca de alvarás para obras. Para a coordenadora da Operação Moeda Verde, delegada Julia Vergara, foi desarticulada uma organização criminosa incrustada na administração pública. As suspeitas são de contrabando, crimes contra a ordem jurídica, falsificação, uso de documentos falsos, formação de quadrilha, corrupção e tráfico de influência.
| O que é prisão temporária |
| É decretada pelo juiz diante de representação apresentada por uma autoridade policial ou de requerimento do Ministério Público. |
| Tem prazo de cinco dias, prorrogável por igual período em caso de extrema e comprovada necessidade. |
| É admitida quando imprescindível para as investigações do inquérito policial ou quando o indiciado não tiver residência fixa ou não fornecer elementos necessários ao esclarecimento de sua identidade. |
| Além disso, é admitida quando houver claras razões, de acordo com qualquer prova admitida na legislação penal, de autoria ou participação do indiciado em homicídio doloso, seqüestro ou cárcere privado, roubo, extorsão ou extorsão mediante seqüestro, estupro, atentado violento ao pudor, rapto violento, quadrilha ou bando, tráfico de drogas e outros. |
| Fonte: Código Penal e Lei 7.960/1989 |
| As gravações |
| O Diário Catarinense teve acesso a alguns trechos de conversas telefônicas interceptadas pela Polícia Federal entre o vereador Juarez Silveira e Péricles de Freitas Druck, do grupo Habitasul: |
| Telefonema 1 |
| Juarez: No Deinfra, eles não conseguiram nada, na prefeitura não conseguiram nada, então eles estão enlouquecidos. Então...vieram falar comigo. |
| Péricles: O que tu podias eventualmente colaborar... |
| Telefonema 2 |
| Juarez: Eu, na verdade, gostaria de atender o pessoal da DVA, o Toniolo, que me ajuda muito na eleição... |
| Péricles: Já tá sendo examinado pela Andréia. |
| Juarez: Tá, então é o seguinte, ó: eu precisava muito disso aí, porque e... o Toniolo é muito bacana comigo. Não é só por carro, não. |
| Conversa entre André Luiz Dadam, servidor da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Fatma), e o proprietário do Costão do Santinho, Fernando Marcondes de Matos |
| Marcondes de Matos: Aquilo ali merece um trabalho grande nosso. |
| Dadam: Vou dar uma passadinha na Fatma. |
| Marcondes: Pode ficar frio. |
| Quem são e o que alegam os citados nas investigações |
| Vinte e duas pessoas foram citadas pelas investigações da Polícia Federal. Dezenove foram detidas ontem e três estavam em viagem. No final da noite, três suspeitos foram liberados |
| O que diz o advogado dos citados do Grupo Habitasul: |
| "Meus clientes prestaram esclarecimentos, não havendo motivos para manutenção da prisão. Os empreendimentos da empresa não envolvem ilegalidades e, quando existem discussões jurídicas sobre a ocupação de um terreno, o poder público sempre acompanha", afirmou o advogado Felipe Cardoso Moreira, representante dos nomes ligados ao Grupo Habitasul. |
| O que diz o advogado de Percy Haensch e Gilson Junckes: |
| "Até onde pude apreciar os depoimentos e a decisão do juiz, as prisões não têm embasamento em culpa ou envolvimento direto dos meus clientes. Eles foram segregados para prestar declarações que possam auxiliar nas investigações. Prestadas as declarações, as prisões não têm mais razão de ser porque eles não têm culpa de nada", declarou o advogado Júlio Müller, que defende Percy Haensch e Gilson Junckes. |
| No início da noite, o juiz Zenildo Bodnar expediu alvará de soltura em benefício de Percy Haensch. |
| O que diz o defensor de Rubens e Rodrigo Bazzo e Sérgio Lima de Almeida: |
| "Vamos pedir a liberdade provisória pois todos os meus clientes são réus primários, sem antecedentes criminais, com profissão definida e residência fixa em Florianópolis. A prisão temporária foi realizada para permitir que a Polícia Federal finalize as buscas, mas não havia necessidade porque isso vai causar aos inocentes desgastes emocional e financeiro. Meus clientes têm inocência absoluta e entramos como pedido de relaxamento de prisão. O Sérgio Almeida está na Europa e devo apresentá-lo para a Polícia Federal na segunda-feira que vem. Também pretendo reunir os advogados para dar um encaminhamento comum aos processos", declarou o advogado Leoberto Baggio Caon. |
| Contraponto |
| O que diz a assessoria da Angela Amin |
| A ex-prefeita Angela Amin (PP), hoje deputada federal, pode manifestar-se hoje sobre as acusações do prefeito Dário Berger. Ontem, data da deflagração da Operação Moeda Verde, a deputada participava de sessões na Câmara Federal. Sua assessoria de imprensa informou que o retorno de Angela estava previsto para por volta das 23h. Durante o dia, teriam tentado contato com ela sem conseguir falar sobre a ação policial em Florianópolis. |
| Sobre a liberação dos licenciamentos, a assessoria confirmou que houve concessão para os empreendimentos Floripa Shopping e Iguatemi durante a administração passada. Mas disse que não se trata de licença ambiental, e sim licenciamento para a obra. As investigações que embasaram a operação duraram, conforme a delegada Julia Vergara, nove meses e até ontem à noite não envolviam nomes dos secretários da administração anterior. |
| Trechos do despacho de juiz apresentados pelo prefeito |
| Renato Juceli de Souza (secretário da Susp) |
| Cunhado do vereador Juarez Silveira. Segundo apurou a polícia e pelas escutas telefônicas, Silveira tinha acesso aos procedimentos da secretaria, os quais eram, em tese, facilitados pela interferência do secretário. Além do que foi apurado pela polícia, conversas interceptadas são indício de que o secretário facilitaria a concessão da licença para empreendimentos e que "colheria os frutos depois" |
| Francisco Rzatky (superintendente da Floram) |
| Autorização ambiental para detonação de rochas em Área de Preservação Permanente (APP), indícios de concessão irregular de licenças ambientais na condição de chefe da Floram |
| Marcelo Vieira Nascimento (servidor da Floram) |
| Troca de favores para conceder autorizações: hospedava-se em hotel do Grupo Habitasul. Escutas telefônicas apuraram: "Tá comigo (processo) e eu falei com o Hélio, pedi um tempinho pro Hélio, porque a gente tinha dado autorização pra aquele negócio lá do ...hotel (Il Campanário). Depois demos autorização pro Energia e pedi pro Hélio mais uma semana pra dar um espaço. Telefonou à noite para avisar o diretor do Colégio Energia da concessão de autorização |
| Rubens Bazzo (servidor da Susp) |
| Responsável pela análise do processo referente ao Colégio Energia. Escuta revelou que ele disse "eu vou aprovar essa escola aqui e depois que se ...." |
| Alertado pelo filho Rodrigo Bleyer Bazzo de que as obras foram iniciadas sem licenças, fez contato com pessoas responsáveis pela Boate KM-7 dizendo: "Agora se tu pegar essas duas obras boa, vê se tu não esquece do meu Natal né cara" |
| Rodrigo Bleyer Bazzo (filho do servidor da Susp Rubens Bazzo) |
| Acusado de intermediação de pessoas para a construção irregular da Boate KM-7 e os contatos que possuía na Susp |
| Aurélio Castro Remor (secretário municipal de Obras) |
| No caso da demolição da Pizzaria do Mauri, solicitava ao secretário Renato (Susp) "ajuda nesta questão", por ser o dono do imóvel (Mauri) "um amigo meu", "um irmão". ? |
Ação divide entidades civis da ilha
A operação deflagrada pela Polícia Federal foi recebida de forma diferente por duas entidades que acompanham de perto o crescimento urbano de Florianópolis. A União Florianopolitana das Entidades Comunitárias (Ufeco), que mobilizou protestos e ações judiciais contra alguns dos empreendimentos que estão agora sob a suspeita da Polícia Federal, quer aproveitar o momento para reforçar o debate sobre a exploração imobiliária na ilha e fala até em cassação dos envolvidos. Já a ONG FloripAmanhã, criada por empresários para discutir o crescimento sustentável da Capital, teme pelo envolvimento de inocentes no caso.
O presidente da Ufeco, Modesto Azevedo, diz que conversará com as bases comunitárias para iniciar uma campanha pela cassação dos vereadores e funcionários públicos envolvidos no esquema denunciado pela Polícia Federal. "Basta alguém passear pela cidade para ver a destruição. Aqui impera uma máfia, um grupo que está fazendo todo o tipo de manipulação para ver seus empreendimentos aprovados", protesta.
Diante da ação iniciada ontem, Modesto se disse mais aliviado, mas com a certeza de que este é apenas o início do trabalho. Desde 2001, com a criação do Estatuto das Cidades, a Ufeco vem insistindo na discussão de um novo plano diretor para Florianópolis. "A cidade está um caos, não respeitam nem mangue nem o aqüífero. A ilha é muito vulnerável, mas parece que tudo se justifica diante de um suposto desenvolvimento sustentável e da geração de empregos, que são os argumentos usados por quem está à frente destas obras", avalia.
O presidente do conselho da ONG FloripAmanhã, Alaor Francisco Tissot, defende o crescimento da cidade, mas reclama da forma como este crescimento vem ocorrendo. Ele é menos otimista sobre a operação deflagrada ontem. Tissot demonstra receio em relação aos métodos adotados e questiona o que chama de uma "pirotecnia".
Coluna Paulo Alceu ; 4/5/2007
Florianópolis acordou com uma operação da Polícia Federal denominada de moeda verde prendendo personalidades da construção civil, políticos, servidores de organismos da administração municipal e estadual, todos suspeitos de cometerem crime ambiental. A cidade se viu entre a perplexidade e a satisfação. Não por ver pessoas conhecidas e respeitadas sendo detidas temporariamente para investigação, mas pelo sentimento de justiça. De repente 170 policiais de Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná apagaram por alguns momentos a impunidade conhecida e muitas vezes praticada. Permitiram uma rusga de esperança diante de um país que tem muito que mudar. E a cidade, sem dúvida, deve ser preservada de relações escusas. Se houve que se punam os culpados. O que não se pode é um julgamento precipitado, um linchamento moral. São pessoas que atuam na cidade ou dando emprego, ou investindo, ou sempre acreditando, mas se hoje estão no banco dos réus terão que se explicar em respeito a esta mesma cidade e seus cidadãos.
Não estamos diante de marginais e criminosos, mas de empresários que investem pesado na cidade e políticos suspeitos de crime ambiental e corrupção ativa, como também servidores da administração municipal e estadual. Não foram condenados, sendo assim todos se mantêm inocentes até prova em contrário.
A operação deflagrada pela Polícia Federal, sem alardes e com profissionalismo, revelou que algo poderá mudar daqui para frente no Estado na esfera da proteção ambiental. Era comum ouvir pelos cantos mais variados da cidade comentários de facilidades e benefícios entre políticos e empresários como se fossem algo comum e corriqueiro. Faltavam as provas, mas sobravam suspeitas. As dúvidas se sustentavam no Plano Diretor que sofria inúmeras modificações sempre atendendo alguns segmentos. Será que visava a cidade? É um bom momento para rever a Câmara Municipal, até para preservar quem faz um trabalho digno. Separar o joio do trigo.
-Pela primeira vez as histórias comentadas em ambientes sociais estão na mira da Polícia Federal e do Ministério Público. Florianópolis em alguns aspectos parecia terra de ninguém, ou de alguns poucos privilegiados. Dependia de relacionamentos para abrir portas às vezes ilegais. É uma cidade fascinante e por isso merece ser reverenciada e não desrespeitada. A ação da Polícia Federal provocou dúvidas àqueles que acreditavam que por aqui estavam havendo, isso sim, perseguições no campo ambiental. O próprio governador levantou-se várias vezes em defesa dos empreendedores como se fossem vítimas quem sabe de ações de autoridades exigentes ao extremo contrárias ao desenvolvimento. Parece que a história não é bem esta. Uma convivência salutar e responsável entre o homem e a natureza se faz obrigatória. Preservar e usufruir, não extrair benefícios próprios.
Vale destacar que em 2005 o procurador-chefe do Ministério Público Federal, Walmor Alves Moreira, fez uma série de denúncias de crime ambiental em Florianópolis. Há mais de 300 ações contra a Fatma por comercialização de licenças. Quando assumiu em 2003 percebeu a má gestão ambiental por parte da Fatma, que não respeitava a legislação, o código florestal e as resoluções da Conama.
A operação moeda verde cumpriu 30 mandados de busca e apreensão e 17 mandados de prisão temporária depois de nove meses de intensas investigações que começaram por um empreendimento em Jurerê Internacional de responsabilidade da Habitasul estendendo-se para outros empresários e vereadores. Gravações telefônicas permitiram chegar a pessoas que segundo a Polícia Federal estariam praticando crime ambiental, tráfico de influência, formação de quadrilha, corrupção ativa e passiva além de crime contra a administração pública.
“Aos amigos tudo, aos inimigos nada.” A declaração é da delegada Júlia Vergara que comandou a operação. Destacou que havia facilidades na liberação de licenças ambientais para empreendimentos na cidade que apresentavam problemas ambientais e que os envolvidos recebiam pagamento em dinheiro ou carros, além de troca de favores entre órgãos.
-O juiz federal Zenildo Bodnar é conhecido por advogados como uma pessoa equilibrada, exigente e com um alto conhecimento na área ambiental. Não tomaria uma medida de tal repercussão senão tivesse abastecido de provas contundentes.
“Há sim evidências suficientes para que a Justiça puna os infratores,” declarou o delegado Raimundo Barbosa descartando informações de que não havia nada de grave contra os detidos.O delegado também deixou claro que a Polícia Federal não permitirá interferência política reconhecendo que mexeu com gente conhecida da cidade, mas afirma "que todos têm culpa uns em maior grau que outros."
-O delegado Raimundo Barbosa garante que há evidências de que o vereador Juarez Silveira (sem partido) seja o líder do grupo que negociava licenças ambientais em Florianópolis. Silveira nega as acusações. Ontem à noite por determinação do juiz federal Zenildo Bodnar o vereador foi internado com base num laudo médico oficial.
Num primeiro momento o procurador-geral do município, Jaime de Souza, afirmou que se tratavam de questões ambientais da administração passada.Tentou isentar de culpa o governo Dário Berger transferindo o peso para governos anteriores., entre eles de Ângela Amin. Mas ao assumir não manteve as ilegalidades? Sendo assim tem parte da culpa. A partir daí o procurador evidenciou que as decisões foram acompanhadas pela administração Berger por serem consideradas legais. Não é a opinião da Polícia Federal que garante possuir provas robustas.
MOEDA INDIGESTA
Coluna Cesar Valente ; 4/5/2007
Boa parte da face “primeiro mundista” da capital foi ontem visitar a carceragem da Polícia Federal. Foram acompanhados de boa parte da administração Dário Berger. Ciceroneados pelo ex-líder do governo municipal da Câmara e pelo ex-presidente da Câmara, empresários e servidores públicos puderam comprovar que as instalações do novo prédio são mesmo de primeira qualidade.
(Comentário da noite: quer dizer... não foi bem assim, porque o ex-líder baixou hospital e o ex-presidente estava no Prata, mas em todo caso vocês entenderam o cenário, né?).
Ainda é cedo para atirar pedras ou para dizer “bem feito”. Primeiro, porque a investigação, embora tenha começado há nove meses, agora é que entra na sua fase decisiva. E não se pode dizer, aqui de fora, se a culpa de todos é igual nem se todos têm, de fato, culpa no cartório.
O que parece evidente, contudo, é que o Ministério Público e a Polícia Federal, acreditam naquela história de “onde há fumaça, há fogo”. As histórias que circulavam em voz alta pelos ambientes sociais, restaurantes, bares e esquinas, precisavam, de fato, ser investigadas.
A CASA DA MÃE JOANA
A Ilha de Santa Catarina, em alguns aspectos, parece (parecia?) a Casa da Mãe Joana. Lugar onde, dependendo da amizade com este ou aquele, tudo pode (podia?). Juntava-se a tradicional rotina da corrupção, de criar dificuldade para vender facilidade, com as oportunas lacunas na legislação, com o enorme fascínio que a Ilha desperta nos visitantes.
O resultado era um esquema onde quem tinha como pagar, conseguia até que o Plano Diretor fosse modificado. E quem não tinha como pagar ou não queria sujar as mãos, acabava indeferido. E sem ter a quem recorrer.
E agora?
Coluna Carlos Damião ; 4/5/2007
É cedo para analisar com profundidade a Operação Moeda Verde, desencadeada hoje pela manhã pela Polícia Federal, em cumprimento a mandados de prisão expedidos pela Justiça Federal.
Primeiro, porque não é possível questionar uma decisão judicial baseada, segundo a própria PF, em investigações que começaram há nove meses. Se o juiz Zenildo Bodnar assim decidiu, é porque havia indícios muito fortes de irregularidades em inúmeros empreendimentos, que serão agora devidamente esclarecidas, através dos depoimentos dos implicados ou suspeitos.
Segundo, ninguém, a qualquer título, pode tirar conclusões sobre tudo o que houve. Foram presos empresários, políticos, autoridades municipais e funcionários públicos. Cada um deve ter a sua responsabilidade devidamente apurada pela Justiça, assegurando-se a todos o recurso inalienável à ampla defesa, como deve ser num Estado democrático de direito.
Não é de hoje que o “progresso” de Florianópolis acontece à base do toque de caixa, de muita pressa e de qualquer jeito. Isso tem um preço, esse desenvolvimento não acontece à custa da boa vontade, do espírito público e da renúncia ao lucro.
É necessário analisar com cautela tudo isso que houve, porque todos sabemos que alguns destes – responsabilizados diretamente através de medida judicial – são apenas a ponta de um imenso, mas extraordinário iceberg (minha faxineira, que é uma pessoa simples, disse que “caiu só um pedaço da casa”). Porque a irracionalidade que domina a ocupação da Ilha de Santa Catarina não desaparece apenas com os atos de hoje. Os atos de hoje são relativos a denúncias fundamentadas pelo Ministério Público Federal, por conta de agressões continuadas e “jeitinhos” que todos suspeitavam, todos comentavam, mas sobre os quais não existiam provas suficientes (era tudo na base do “fulano faz isso”, “beltrano faz aquilo”, “visse o jipe novo do rapaz?”, “olha só a cobertura que o sicrano comprou”). Se há provas, que os culpados sejam processados e condenados convenientemente.
O que se diz nas ruas
Numa rápida circulada pela cidade, o que se observa é a surpresa geral das pessoas em relação às prisões de hoje. Os gozadores de plantão se limitam a referências àquele “vereador exibido” ou àquele empresário “prepotente”. Muita gente tem dificuldades para entender o que aconteceu, por tudo quanto já houve em Florianópolis, pelas dunas do Campeche e de Ingleses invadidas por migrantes, pelas praias poluídas, pelo Maciço do Morro da Cruz destruído há décadas, pela favelização de tantos pontos da cidade, pelas construções irregulares que se espalham como praga, pela Lagoa da Conceição transformada em cloaca.
É certo, pelo que se depreende das conversas, que a cidade vai mudar. Já estava precisando mudar há muito tempo. Faltava uma “sacudida”, mesmo que essa “sacudida” venha a resultar em alguma injustiça. Um dia, alguém tinha de fazer algo para enquadrar alguns que se julgavam acima da lei e da ordem.


Os fatos :
As imagens anexas referem-se a uma obra realizada na avenida Madre Benvenuta, em frente a esquina com a rua Doutor Agostinho Sielski no bairro Santa Mônica.
Em junho/julho de 2006 foi edificada uma estrutura de aço que configurava o inicio das obras de um ático ilegal sobre a última laje do prédio.
Durante o segundo semestre de 2006 a obra permaneceu apenas com a estrutura de aço, sem fechamento ou cobertura, o que indicava a interferência da administração pública municipal no sentido de coibir a conclusão daquele acrescimo ilegal.
No início de 2007 as obras foram retomadas e o ático, que não poderia existir, foi concluido.
É licito deduzir que houve cooptação de funcionários da administração pública municipal que permitiram o prosseguimento dos trabalhos de construção em lugar de obrigar o proprietário do imóvel a demolir o acrescimo ilegal.
O loteamento que deu origem a este bairro foi implantado na primeira metade da década de setenta e sua característica, eminentemente residencial, foi consolidada legalmente no Plano Diretor de 1976.
Até os primeiros anos da década de oitenta esta situação permaneceu inalterada. Posteriormente foram introduzidas modificações que viabilizaram a implantação do Supermercado Santa Mônica e da loja Santa Fé, revenda GM.
Por ocasião desta alteração ocorreram questionamentos em relação a atuação da Câmara de Vereadores, no entanto nada foi constatado ou provado no sentido de colocar em dúvida os procedimentos daquela casa no que toca a este processo.
Posteriormente, em nova modificação do Plano Diretor do município, promovida em 1986, persistiu a ênfase no uso residencial das áreas do bairro apesar de estar em curso uma intensa alteração no uso dos imóveis situados ao longo da avenida Madre Benvenuta no trecho compreendido entre a avenida Beiramar e a rodovia Admar Gonzaga.
Por razões não conhecidas, obviamente dissociadas do que estava ocorrendo no local, os técnicos do IPUF ao redigirem o novo Plano diretor que substituiria àquele promulgado em 1976, mantiveram o zoneamento exclusivamente residencial para os terrenos lindeiros à avenida.
Com a promulgação do novo plano, Lei Complementar CMF 001/1997, consolidou-se o zoneamento ARE-6 (Área Residencial Exclusiva 6).
A intensificação da instalação de atividades comerciais e de prestação de serviços, por vezes em imóveis residenciais, em outras ocasiões em imóveis novos, flagrantemente ilegais, levou a instauração de processos questionando estas obras que não poderiam ser realizadas naquele local.
A situação tornou-se insustentável.
A Câmara de Vereadores pressionada promulgou a Lei Complementar CMF 069/2004 que legalizou as instalações comerciais existentes ao longo da avenida Madre Benvenuta e estabeleceu os parâmetros urbanísticos para a construção de novos prédios destinados a comércio e serviços.
O zoneamento adotado foi AMC-2 (Área Mista Central 2), que autorizava a construção de prédios de natureza comercial ressalvando expressamente o que seria proibido, a saber :
A – Hotéis
B – Hotéis-residência
C – Circos e Parques de Diversões
D – Locais para lazer noturno, salões de baile, boites e similares
E – Clubes, associações e similares
F – Lojas de departamentos
G – Mercados, supermercados e hipermercados
H – Galerias e Centros Comerciais
I – Shopping Centers
J – Varejistas de produtos perigosos
K – Pavilhões para feiras, Parques de exposições e similares
L – Estacionamentos, edifícios-garagens e garagens comerciais
M – Indústrias
Além destas, foram impostas outras restrições :
1 – Proibida a construção de áticos, pilotis, subsolos e pavimentos garagem
2 – As obras realizadas nesta área não poderão beneficiar-se do mecanismo da transferência do direito de construir, também conhecido como “transferência de índice”.
3 – O índice de aproveitamento não poderá exceder a 1,0 (hum virgula zero)
A obra cujas imagens são apresentadas abaixo é constituida por dois pavimentos + ático (proibido), quando o máximo permitido seriam 2 pavimerntos, extrapola o índice de aproveitamento determinado pela legislação.
O flagrante descumprimento das normas urbanísticas motiva algumas perguntas :
* Como foi liberada a consulta de viabilidade que autorizou o início do projeto ?
* Quem analisou e aprovou o projeto na SUSP ?
* Quem concedeu o alvará de construção ?
* Quem concedeu o habite-se ?
Zoneamento
AMC-2 (Área Mista Central 2)
Gabarito : 2 pavimentos
Taxa de ocupação : 50 %
Índice de aproveitamento : 1
LEI COMPLEMENTAR 069/2004
Altera o zoneamento aprovado pela Lei complementar nº 050/99.
O Presidente da Câmara Municipal de Florianópolis, no uso das atribuições que lhe confere o artigo 58, parágrafos 3º e 7º da Lei Orgânica do Município de Florianópolis, promulga a seguinte Lei :
ARTIGO 1º - Fica alterada para Área Mesta Central-2 (AMC-2) a Área Residencial Predominante-4 (ARP-4) situada ao longo da avenida Madre Benvenuta (incluídos apenas os terrenos lindeiros). UEO-10, Santa Mônica, conforme delimitação no mapa anexo, parte integrante desta Lei.
Ficam incluídos os seguintes artigos da PLC nº 428/2002 :
Paragrafo 1º - Não será permitida na área a que se refere o “caput” deste artigo a utilização de áticos, pilotis, subsolos e pavimentos garagem.
Paragrafo 2º - Não será permitido, na área objeto desta Lei, o recebimento de potencial construtivo objeto do instrumento urbanístico transferência do direito de construir.
Parágrafo 3º - Ficam proibidos na área objeto desta Lei os usos e atividades constantes dos itens 1.4, 1.5 , 2.1 , 2.6 , 2.7 , 7.2 , 7.4 , 7.5 , 7.6 , 7.7 , 7.11, 8.10 , 9.1 , 9.2 , e 9.3 do anexo II da Lei Complementar nº 001/97.
Parágrafo 4º - Não será permitida, na área objeto desta Lei, a utilização de índice de aproveitamento mais elevado para edificações exclusivamente comerciais, mantendo-se o índice de aproveitamento básico igual a 1,0 (um virgula zero).
Parágrafo 5º - Consideram-se terrenos lindeiros aqueles com profundidade até 30,00 m (trinta metros) a partir da rua Madre Benvenuta.
ARTIGO 2º - Esta Lei Complementar entra em vigor na data de sua publicação.
Câmara Municipal de Florianópolis em 21 de janeiro de 2004.
Vereador Márcio José Pereira de Souza
Presidente em exercício.
Soluções :
A – Alterar as restrições impostas quanto ao uso, número máximo de pavimentos, taxa de ocupação e índice de aproveitamento.
B – Manter o planejamento existente e contratar uma auditoria privada para realizar uma investigação idônea na SUSP e no IPUF.
Responsabilidade política :
Esta obra foi aprovada e licenciada na administração do prefeito Dario Berger



Diário Catarinense ; Coluna Cacau Menezes ; 6/1/2007
Não é apenas um barzinho na Ponta do Sambaqui que se acha dono da rua. O novo e belo Hotel Sofitel, recém-inaugurado na Beira-Mar Norte, também privatizou a rua para estacionamento dos hóspedes. Hotel Cecomtur, no Centro, tá fazendo o mesmo, complicando o trânsito. É a Lei de Gérson.
Depois da bronca de comerciantes e moradores vizinhos, inconformados com o privilégio, as autoridades do trânsito voltaram atrás na decisão de "privatizar" uma grande área de estacionamento na marginal da Beira-Mar para uso exclusivo do Sofitel Hotel.
As vagas estão novamente liberadas para qualquer um, hóspede ou não.
Os fatos :
As imagens apresentadas abaixo referem-se a um hotel localizado na avenida Beira-Mar Norte, entre as travessas Carreirão e Harmonia , no centro de Florianópolis.
Segundo dados publicados no site deste estabelecimento, ele conta com 115 apartamentos, áreas para convenções e reuniões, além de um restaurante.
Aplicando-se os parâmetros estabelecidos pelo Plano Diretor do município de Florianópolis em relação aos dados publicados na Internet verifica-se que deveriam existir, no mínimo, 74 vagas de garagem.
Não há informações acerca do número de vagas de garagem efetivas. Por outro lado é possível verificar a inexistência de vagas para taxis, ônibus bem como para carga e descarga.
Pergunta-se : que a condição especial permitiu a esta obra obter habite-se sem contar com as vagas estipuladas pelo plano diretor ?
Zoneamento
ATR-7 (Área Turístico Residencial)
Gabarito : 12 pavimentos
Taxa de ocupação : 25 %
Índice de aproveitamento : 3
Lei Complementar nº 001/97 (Plano Diretor)
Anexo V : Padrões para estacionamentos
São obrigatórias para os hotéis e meios de hospedagem enquadrados como PGT-1 (Pólos Geradores de Tráfego / Categoria 1) :
· 1 vaga de garagem para cada unidade de hospedagem com área menor ou igual a 50 m2
· 1 vaga de garagem para cada unidade de hospedagem com área maior que 50 m2
· 1 vaga de garagem para cada 10 m2 de salas de convenções, bares, restaurantes ou boites
· 1 vaga de garagem para cada 100 m2 de áreas de uso público
· 1 vaga para ônibus para cada 40 unidades de alojamento
· 2 vagas para carga e descarga
· 1 vaga de ônibus para embarque e desembarque
· 2 vagas para taxi
Anexo VIII : Tabela dos Pólos geradores de Tráfego
São considerados PGT-1 (Pólos Geradores de Tráfego / Categoria 1) todos os hotéis e demais meios de hospedagem que possuirem de 50 a 200 unidades de hospedagem.
Sumário :
Um edifício destinado a abrigar um hotel teve seu projeto aprovado pela SUSP, obteve alvará de construção e habite-se, apesar de não atender as normas definidas no Plano Diretor. de Florianópolis.
Sob condições normais deveriam ser responsabilizados o proprietário da obra, os autores do projeto, autoridades e funcionários da SUSP e IPUF.
Soluções :
A – Alterar, no Plano Diretor as exigências relativas a vagas de estacionamento e serviços.
B – Manter o planejamento existente e contratar uma auditoria privada para realizar uma investigação idônea na SUSP e no IPUF.
Responsabilidade política :
Esta obra foi aprovada e licenciada na administração da prefeita Ângela Amin e concluída na administração do prefeito Dario Berger.




Os fatos :
Esta obra, localizada na avenida dos Pampos esquina com a rua das Trutas, em Jurerê Internacional, possui um terceiro pavimento ilegal.
O registro das diversas etapas da fase de acabamento é “didático” acerca da construção e “legalização” de pavimentos ilegais, prática que se tornou rotineira em Jurerê Internacional e está “fazendo escola” em diversos outros locais da Ilha de Santa Catarina.
O registro cronológico da imagens é auto-explicativo :
23/4/2006 – Até esta data a construção desta casa não apresentava qualquer “disfarce” para o terceiro pavimento, que não é permitido pela legislação de uso do solo em vigor.
25/6/2006 – Nesta data podem ser observados dois estágios do processo de “pseudo-legalização da obra para obter o habite-se. O terceiro pavimento não tem acesso físico, a escada possui apenas 1 lance. Na fachada posterior as esquadrias e o acesso ao terraço são”maquiadas”. O processo de camuflagem consiste na colocação de painéis de gesso acartonado que posteriormente receberão pintura idêntica ao restante das paredes externas.
27/6/2006 – A casa encontra-se pronta para receber o habite-se.
7/10/2006 – Concluído o processo de habite-se, durante o qual os fiscais do município não “viram” o terceiro pavimento, é executado o segundo lance da escada.
17/12/2006 – A finalização do processo de reversão da maquiagem é feito, são retirados os painéis de gesso acartonado que escondiam as esquadrias e o acesso ao terraço. Para assegurar a privacidade, e “sumir” com a escada de dois lances, todos os vidros do pavimento térreo recebem a aplicação de um filme que impede a visualização do interior da casa a partir da rua.
Zoneamento :
ARE-5 (Área Residencial Exclusiva)
Gabarito : 2 pavimentos
Taxa de ocupação : 50 %
Índice de aproveitamento : 1
Sumário :
Uma residência teve seu projeto aprovado pela SUSP, obteve alvará de construção e habite-se, apesar de contar com um pavimento além daqueles previstos pela legislação.
Sob condições normais deveriam ser responsabilizados o proprietário da obra, os autores do projeto, os funcionários da SUSP que o aprovaram e o fiscal encarregado da concessão do habite-se.
Soluções :
A – Alterar o zoneamento com aumento do gabarito de dois para três pavimentos. Este procedimento reduziria a corrupção de funcionários do município : é impossível cobrar propinas quando as obras atendem a legislação.
B – Manter o zoneamento existente e, em contrapartida, contratar uma auditoria privada para realizar uma investigação idônea na SUSP e no IPUF.
Responsabilidade política :
Esta obra foi aprovada e licenciada na administração do prefeito Dario Berger.






Depois de trabalhar por 33 anos na Polícia Federal, o delegado Ildo Rosa foi destacado para assumir a Secretaria de Defesa do Cidadão e o Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (Ipuf). No Ipuf, se deparou com dois esquemas de corrupção. Um agia na Zona Azul, que desviava recursos financeiros, e outro na Controladoria de Infrações, onde multas eram "perdoadas" irregularmente.
Quando assumiu o cargo, em junho, a Prefeitura arrecadava cerca de R$ 320 mil mensais com multas de trânsito. Hoje o valor está em mais de R$ 1 milhão. Na Zona Azul, a arrecadação variava de R$ 7 mil a R$ 14 mil por dia. Agora permanece estável.
A Polícia Civil abriu inquérito para investigar o caso da Zona Azul. Ouviu funcionários para esclarecer o funcionamento do esquema e também os três gerentes suspeitos de se beneficiar com dinheiro público. Todos os três negaram o desvio de recursos. Quem cuida das investigações é o delegado Acioni Souza Filho, que entrega as conclusões amanhã. E adiantou que vai indiciar três pessoas, sem revelar as identidades.
A polícia ainda não investiga o caso da Controladoria da Infrações. Por enquanto, o esquema está sendo mapeado internamente no Ipuf.
O diretor-geral Ildo Rosa explicou que irá emitir novas notificações de multas que foram baixadas do sistema recentemente. O objetivo é checar as justificativas usadas nos recursos e por meio de quem os motoristas conseguiram abonar as notificações. Na entrevista da página 5, o delegado e secretário desmembra como funcionava o esquema.
Levanta a hipótese da corrupção possuir tentáculos fora da Prefeitura e admite que o prefeito Dário Berger (PSDB) já imaginava que algo estava errado no instituto. Ildo Rosa afastou um gerente e demitiu outros dois que ocupavam cargos comissionados. Além disso, afastou 11 funcionários terceirizados que trabalhavam na controladoria. "Sou contra terceirização. Sou favorável a profissionalização dos serviços".
Como funcionava
· Zona Azul
Além dos carnês oficiais da Zona Azul, os agentes de trânsito também tinham que trabalhar com os "carnês ruins". Eles eram diferentes dos comuns e o dinheiro da venda não era contabilizado no Ipuf: ia direto para três gerentes do instituto.
· Controladoria de Infração
Mais de duas mil multas por mês eram justificadas e baixadas do sistema sem o devido pagamento. O procedimento era feito com a distribuição da senha master entre vários funcionários. Eles entravam no sistema e deletavam a infração. Ainda não se sabe quem fazia a ponte entre os motoristas multados e o Ipuf. Sabe-se apenas que a ação era realizada quando o motorista recebia a notificação de autuação - competência do Ipuf - e antes do auto de infração, quando os recursos não competem mais à autarquia.
Provas e Evidências
· Zona Azul
Depois que os "carnês ruins" foram abolidos, a arrecadação com o estacionamento deixou de sofrer grandes variações. Em alguns dias, chegava a 50%. Também há um documento da empresa Master's Print - que imprime os carnês - afirmando de que nunca emitiu os "carnês ruins". O delegado da Polícia Civil Acioni Souza Filho ainda cita a prova que está em mão da perícia: cartelas falsificadas.
· Controladoria de Infrações
Sem provas documentais, a principal evidência recai sobre o aumento da arrecadação. Quando o esquema foi descoberto, o Ipuf arrecadava com as multas pouco mais de R$ 300 mil por mês. Em outubro, o valor passou de R$ 1 milhão. Outra evidência é a "romaria" de pessoas para justificar as multas. Segundo Ildo Rosa, a demanda caiu logo após a intervenção.
Investigação
· Zona Azul
A Polícia Civil abriu inquérito para investigar o caso e baseou as conclusões em testemunhos e provas documentais. O inquérito será entregue amanhã, quando três pessoas serão indiciadas. A polícia não quis revelar as identidades.
· Controladoria de Infrações
Como será difícil levantar provas documentais, a investigação interna do Ipuf vai se concentrar nas testemunhas. O próximo passo é analisar as justificativas recentes de multas e emitir novas notificações de autuação para conferir os argumentos utilizados. Depois de finalizada, será elaborado um relatório que vai para a da Polícia Civil. Ainda não há previsão de conclusão dos trabalhos internos.
"É um sistema que estava ali. Por quanto tempo?
Segundo se comenta, esses procedimentos teriam sido implantados em setembro do ano passado."
AN Capital - O que ocorreu na Zona Azul e como o esquema foi descoberto?
Ildo Rosa - As duas intervenções, na Zona Azul e Coordenação de Infrações, vieram realmente por algo que é básico: as receitas de custeio eram muito próximas do valor arrecadado. Se mantida aquela tendência, nós inviabilizaríamos o próprio sistema. A Prefeitura não tem previsão orçamentária nem recursos para manter a Zona Azul.
ANC - O senhor está falando da variação de R$ 7 mil a R$ 14 mil?
Ildo - Não, ainda sobre os gastos e despesas. Nós nos debruçamos na contabilidade e percebemos que as variações ficavam em torno de R$ 230 mil a R$ 270 mil por mês. Mas a variação aparecia em dias que a arrecadação caía de forma inexplicável. Era de R$ 12 mil a R$ 14 mil por dia e caía para R$ 7 mil. E não era final de semana nem feriado. Nos preocupamos com isso e, então, ouvimos um comentário dos funcionários de que eles trabalhavam com os chamados "carnês ruins".
ANC - O que é o "carnê ruim"?
Ildo - É um carnê diferenciado do nosso. Fizemos uma vistoria na pochete dos agentes de trânsito atrás destes carnês. Encontramos em duas delas. Seguimos a trilha e achamos um comprovante que dizia que os carnês eram adquiridos legalmente, com nota. O que mostra total boa fé dos agentes de trânsito. Então chamei as caixas, já que eram elas que entregavam os carnês. E me disseram: "Dr. a gente esperava que o senhor nos chamasse. A gente realmente tinha dois tipos de carnês. Um era contabilizado pelo Ipuf e o outro era caixa 2. Entregue ao gerente". Então, qual é a dúvida? Nenhuma.
ANC - Elas usaram o termo "caixa 2"?
Ildo - Sim, falaram tranqüilamente. Havia uma contabilidade do Ipuf e uma folha onde era contabilizado o carnê ruim. Eles alegaram que esse carnê ruim era para manutenção administrativa da Zona Azul.
ANC - Quem eram os gerentes?
Ildo - Eram três. O gerente nomeado pelo Ipuf, Arilto Xavier, que é efetivo; a Jaqueline Assis, gerente operacional, e o Osmar Santos, gerente administrativo. Os três foram afastados.
ANC - Que documentos vocês têm que provam a fraude?
Ildo - Temos um boletim de arrombamento que, segundo registro da Polícia Civil, teria sido subtraído R$ 21,5 mil em dinheiro da Zona Azul . Não teria como ter esse valor. Fizemos um levantamento de que o valor arrecadado até o meio-dia já havia sido depositado no banco. A única coisa que estava em caixa era o valor da parte da tarde. Em torno de R$ 4,5 mil. Mas, segundo declaração dos caixas, havia toda uma gama de vales que eram retirados pelos gerentes. Aí, aproveitaram o arrombamento e retiraram todos os vales e remeteram como sendo o valor que tinha sido subtraído. Tenho o registro assinado pela Jaqueline e pelo Arilto.
ANC - A responsabilidade, por enquanto, recai sobre estas pessoas?
Ildo - Não vejo de outra forma. Agora, é um sistema que estava ali. Por quanto tempo? Segundo se comenta, esses procedimentos teriam sido implantados em setembro do ano passado. Mas isso não se sabe.
ANC - Quando o prefeito Dário Berger (PSDB) convidou o senhor para o Ipuf, ele já imaginava que existia alguma irregularidade?
Ildo - Disse que tinha algumas questões fortes. Agora, para dizer a verdade, o caso da coordenadoria é de maior envergadura e o caso que talvez demonstrasse maior preocupação por parte do prefeito. Ele não me falou de uma situação concreta, mas me instigou a organizar as bases.
ANC - Como o caso das multas foi descoberto?
Ildo - O Arilto era gerente da coordenadoria. Então, porque eu confiaria nele?. Fizemos intervenção lá também e afastamos ele. Na primeira semana, era uma romaria para abonar as multas. Soubemos que outros funcionários tinham a senha master e afastamos todos os 11. Afinal, quem tem a senha master não pode compartilhar com ninguém, porque permite que se abra o sistema e se excluam os valores.
ANC- As multas são do quê?
Ildo - A maioria de fotossensores. Depois de flagrado, vem primeiro a notificação de autuação, que dá prazo para a defesa. Em seguida, vem o auto de infração. No esquema, eles trabalhavam na primeira fase. Eram funcionários sem competência para fazer o que faziam. Só se interfere em ocasiões especialíssimas. Não daquele jeito. O sistema eletrônico não pode errar tanto. Não dá para chegar no fim do mês e justificar 2,4 mil infrações.
ANC - Como duas mil pessoas por mês sabiam do esquema? Deve ter mais gente envolvida.
Ildo - Claro, mas ainda não se sabe como. Levanta-se a possibilidade de um esquema grande. O que nós vamos fazer? Vamos checar os processos recentes com justificativa e vamos lavrar uma nova infração. Aí, a pessoa vem nos procurar e vamos saber o que aconteceu.
ANC - Como está a controladoria agora?
Ildo - Hoje não existe mais aquela romaria diária para tirar multa. Só duas pessoas podem ter a senha. O gerente do sistema viário e o guarda municipal que eu designei como interventor.
ANC - Quando pediu demissão em conjunto com outros três secretários em outubro, o senhor reclamou da falta de autonomia e também cogitou-se pressão de apadrinhados políticos. Essa versão é verdadeira?
Ildo - Eu fui o único que expliquei porque coloquei o cargo à disposição. Disse claramente que o meu compromisso é de gestão e a forma como estava vivenciando não dava para fazer nada. O Ipuf é uma autarquia e, por isso, deveria ter autonomia financeira e administrativa. Aliás, é a única do município. Eu preciso de uma autonomia que me permita agir em compatibilidade com a minha responsabilidade.
ANC - A pressão dos apadrinhados reduziu?
Ildo - Eu não tenho mais problema com pressão de ninguém. Ninguém perde tempo. Até porque, além de não conseguir nada, acaba arrumando um inimigo a mais. E o fato de eu ir para a imprensa e falar, como eu falei, fez com que muitas pessoas pensassem duas vezes.
Diário Catarinense ; Cacau Menezes ; 12/9/2006
É claro que se existem corruptos é porque existem os corruptores. Eles sabem disso. Mas vai ver que é isso que os corruptores estão querendo denunciar agora. Que pagaram muito para poucos.

Os fatos :
As imagens apresentadas abaixo referem-se a uma obra realizada na avenida Madre Benvenuta, esquina com as ruas Ricardo Pedro Goulart e João dos Santos Areão, no bairro Santa Mônica.
O loteamento que deu origem a este bairro foi implantado na primeira metade da década de setenta e sua característica, eminentemente residencial, foi consolidada legalmente no Plano Diretor de 1976.
Até os primeiros anos da década de oitenta esta situação permaneceu inalterada. Posteriormente foram introduzidas modificações que viabilizaram a implantação do Supermercado Santa Mônica e da loja Santa Fé, revenda GM.
Por ocasião desta alteração ocorreram questionamentos em relação a atuação da Câmara de Vereadores, no entanto nada foi constatado ou provado no sentido de colocar em dúvida os procedimentos daquela casa no que toca a este processo.
Posteriormente, em nova modificação do Plano Diretor do município, promovida em 1986, persistiu a ênfase no uso residencial das áreas do bairro apesar de estar em curso uma intensa alteração no uso dos imóveis situados ao longo da avenida Madre Benvenuta no trecho compreendido entre a avenida Beiramar e a rodovia Admar Gonzaga.
Por razões não conhecidas, e obviamente dissociadas do que estava ocorrendo no local, os técnicos do IPUF ao redigirem o novo Plano diretor que substituiria àquele promulgado em 1976, mantiveram o zoneamento exclusivamente residencial para os terrenos lindeiros à avenida.
Com a promulgação do novo plano, Lei Complementar CMF 001/1997, consolidou-se o zoneamento ARE-6 (Área Residencial Exclusiva 6).
A intensificação da instalação de atividades comerciais e de prestação de serviços, por vezes em imóveis residenciais e em outras ocasiões em imóveis novos, flagrantemente ilegais, levou a instauração de processos questionando estas obras que não poderiam ser realizadas naquele local.
A situação tornou-se insustentável, a Câmara de Vereadores, pressionada, promulgou a Lei Complementar CMF 069/2004 que legalizou as instalações comerciais existentes ao longo da avenida Madre Benvenuta e estabeleceu os parâmetros urbanísticos para a construção de novos prédios destinados a comércio e serviços.
O zoneamento adotado foi AMC-2 (Área Mista Central 2), autorizava a construção de prédios de natureza comercial ressalvando expressamente o que seria proibido:
A – Hotéis
B – Hotéis-residência
C – Circos e Parques de Diversões
D – Locais para lazer noturno, salões de baile, boites e similares
E – Clubes, associações e similares
F – Lojas de departamentos
G – Mercados, supermercados e hipermercados
H – Galerias e Centros Comerciais
I – Shopping Centers
J – Varejistas de produtos perigosos
K – Pavilhões para feiras, Parques de exposições e similares
L – Estacionamentos, edifícios-garagens e garagens comerciais
M – Indústrias
Além destas, foram impostas outras restrições :
1 – Proibida a construção de áticos, pilotis, subsolos e pavimentos garagem
2 – As obras realizadas nesta área não poderão beneficiar-se do mecanismo da transferência do direito de construir, também conhecido como “transferência de índice”.
3 – O índice de aproveitamento não poderá exceder a 1,0 (hum virgula zero)
A obra cujas imagens são apresentadas abaixo constitui um centro comercial (proibido), possui subsolo (proibido), três pavimentos acima do nível da rua, quando o máximo permitido seriam 2, e extrapola o índice de aproveitamento determinado pela legislação.
O flagrante descumprimento das normas urbanísticas motiva algumas perguntas :
* Como foi liberada a consulta de viabilidade que autorizou o início do projeto ?
* Quem analisou e aprovou o projeto na SUSP ?
* Quem concedeu o alvará de construção ?
* Quem concedeu o habite-se ?
Zoneamento
AMC-2 (Área Mista Central 2)
Gabarito : 2 pavimentos
Taxa de ocupação : 50 %
Índice de aproveitamento : 1
LEI COMPLEMENTAR 069/2004
Altera o zoneamento aprovado pela Lei complementar nº 050/99.
O Presidente da Câmara Municipal de Florianópolis, no uso das atribuições que lhe confere o artigo 58, parágrafos 3º e 7º da Lei Orgânica do Município de Florianópolis, promulga a seguinte Lei :
ARTIGO 1º - Fica alterada para Área Mesta Central-2 (AMC-2) a Área Residencial Predominante-4 (ARP-4) situada ao longo da avenida Madre Benvenuta (incluídos apenas os terrenos lindeiros). UEO-10, Santa Mônica, conforme delimitação no mapa anexo, parte integrante desta Lei.
Ficam incluídos os seguintes artigos da PLC nº 428/2002 :
Paragrafo 1º - Não será permitida na área a que se refere o “caput” deste artigo a utilização de áticos, pilotis, subsolos e pavimentos garagem.
Paragrafo 2º - Não será permitido, na área objeto desta Lei, o recebimento de potencial construtivo objeto do instrumento urbanístico transferência do direito de construir.
Parágrafo 3º - Ficam proibidos na área objeto desta Lei os usos e atividades constantes dos itens 1.4, 1.5 , 2.1 , 2.6 , 2.7 , 7.2 , 7.4 , 7.5 , 7.6 , 7.7 , 7.11, 8.10 , 9.1 , 9.2 , e 9.3 do anexo II da Lei Complementar nº 001/97.
Parágrafo 4º - Não será permitida, na área objeto desta Lei, a utilização de índice de aproveitamento mais elevado para edificações exclusivamente comerciais, mantendo-se o índice de aproveitamento básico igual a 1,0 (um virgula zero).
Parágrafo 5º - Consideram-se terrenos lindeiros aqueles com profundidade até 30,00 m (trinta metros) a partir da rua Madre Benvenuta.
ARTIGO 2º - Esta Lei Complementar entra em vigor na data de sua publicação.
Câmara Municipal de Florianópolis em 21 de janeiro de 2004.
Vereador Márcio José Pereira de Souza
Presidente em exercício.
Soluções :
A – Alterar as restrições impostas quanto ao uso, existência de subsolo, número máximo de pavimentos, taxa de ocupação e índice de aproveitamento.
B – Manter o planejamento existente e contratar uma auditoria privada para realizar uma investigação idônea na SUSP e no IPUF.
Responsabilidade política :





























